terça-feira, 7 de outubro de 2014

CAMOCIM E AS ELEIÇÕES Á BICO DE PENA


            Passada a primeira etapa das eleições de 2014, cada vez mais a tecnologia toma conta do embate eleitoral. No mesmo dia temos os resultados das urnas e vitoriosos e derrotados não são expostos à uma tensão maior de espera dos seus esforços de campanha. Os eleitores já estão sendo identificados pela biometria diminuindo sensivelmente as fraudes. Mas, nem sempre foi assim. Sou do tempo em que a vitória ou a derrota dos partidos e candidatos só era conhecida após três dias, no caso de Camocim. A central de apuração era no então prédio do INPS e a contagem era feita voto a voto, nas cédulas de papel, e as diferenças transmitidas por meio de bilhetes jogados do alto para a população que se aglomerava nas imediações ou então pelos informes dos repórteres das rádios ligadas aos grupos políticos Cara Preta e Fundo Mole - Radio União e Pinto Martins, respectivamente. Quando um partido se distanciava na contagem, o desânimo tomava conta dos radialistas do partido que estava perdendo e as atualizações dos resultados para estes, eram um verdadeiro calvário a ponto de desistirem antes de finda a apuração. Mas se voltarmos ao inicio do século XX, as eleições não tinham essa exploração midiática. Os resultados eram praticamente feitos nas alcovas das repartições públicas, à bico de pena, como se dizia antigamente, por pessoas ligadas ao partido que estava no poder. Embora com caráter anedótico, o jornal A Esquerda de Sobral de 1919, traz um episódio escrito na coluna Respingos, assinada por um certo H.M, que ilustra bem como foi decidido os destinos políticos de Camocim naquele ano, mas que serve para qualquer lugar. Diz o nosso colunista:
 - Senhor coronel o homem foi derrotado barbaramente: gemeu o escriba.
-Quantos votos a mais?
-Duzentos, afora as cédulas rasgadas.
-E você fez o que seu palerma.
- O que pude. O pessoal do cemitério votou todo, mas falta ainda gente e a cabeça não ajudou.
- Tolice homem. Vamos. Escreva lá: João Silva.
- Já votou: Tartamudeou o outro.
- Pancrácio Pimenta.
- Serve.
            Os nomes sucederam-se numa cantilena monótona até de manhã quando o coronel inquiriu:
- Uns dois,
- Ponha lá!
- Não posso mais estou com a munheca dormente.
            O coronel escreveu os nomes restantes e o candidato situacionista foi eleito...

            Se pudessem, com certeza ainda haveria políticos que usariam deste expediente.

Fonte: Jornal A Esquerda. Sobral, 1919.

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